Radiodiagnóstico

O frio como bisturi: como a crioablação guiada por imagem trata a endometriose no umbigo sem cirurgia aberta

A crioablação guiada por imagem no tratamento da endometriose umbilical é uma daquelas histórias em que a física e a medicina se encontram de um jeito elegante: em vez de um bisturi, usa-se temperatura extremamente baixa para destruir um tecido doente com uma agulha fina, enquanto o médico acompanha tudo em tempo real numa tela de ultrassonografia. Um estudo publicado na European Radiology em maio de 2026 avaliou essa abordagem em 17 mulheres ao longo de quase oito anos, e os resultados merecem atenção cuidadosa.

Uma doença pequena no lugar errado

Endometriose é uma condição em que tecido semelhante ao revestimento interno do útero cresce fora dele. Na maioria dos casos, esse tecido aparece na pelve — nos ovários, nas trompas, no peritônio. Mas, em situações raras, ele pode se instalar em lugares bastante distantes, como o umbigo. Essa variante tem nome próprio: endometriose umbilical.

O nódulo que se forma ali é pequeno — no estudo, o volume mediano era de cerca de 2,4 cm³ medido na ultrassonografia, algo próximo a uma azeitona —, mas causa dor desproporcional ao tamanho. A dor piora durante a menstruação, porque esse tecido responde aos hormônios do ciclo da mesma forma que o endométrio dentro do útero: ele incha, sangra e irrita. Além disso, o nódulo é visível na superfície do corpo, o que gera preocupação estética.

O tratamento padrão até aqui era cirúrgico: retirar o nódulo e, muitas vezes, reconstruir o umbigo. É um procedimento eficaz, mas invasivo, com cicatriz, tempo de recuperação e risco de complicações. A pergunta que os pesquisadores fizeram foi direta: é possível fazer o mesmo — aliviar a dor e reduzir o nódulo — sem abrir nada, usando apenas uma agulha e guia de imagem?

Como o frio destrói sem cortar: a física da crioablação

Para entender a crioablação, ajuda pensar no que acontece quando uma fruta fica tempo demais no freezer. As células contêm água. Quando o frio é intenso o suficiente, essa água congela dentro e fora das células, formando cristais de gelo que rompem as membranas e destroem a estrutura celular. O tecido morre não por corte, mas por colapso físico-químico.

Na prática clínica, isso é feito com uma sonda metálica fina — a criosonda — que é inserida através da pele diretamente no nódulo. Dentro da sonda circula gás argônio a alta pressão, que se expande rapidamente ao sair por um orifício estreito. Esse fenômeno, chamado de efeito Joule-Thomson, produz temperaturas que chegam a -40 °C ou menos na ponta da agulha. Em torno dela forma-se uma bola de gelo — a “ice ball” — que pode ser vista em tempo real na ultrassonografia como uma área escura, bem delimitada.

Essa visibilidade é uma das grandes vantagens do método. O médico não está operando às cegas: ele acompanha o crescimento da zona congelada e controla se ela está englobando o nódulo sem avançar para estruturas vizinhas. É uma diferença importante em relação a técnicas térmicas como a radiofrequência, em que o calor gerado é mais difícil de monitorar visualmente com a mesma precisão — embora ambas tenham usos bem estabelecidos, dependendo do contexto clínico.

No estudo, os procedimentos foram realizados com guia de ultrassonografia isolada ou em combinação com tomografia computadorizada, dependendo da complexidade do caso. A tomografia computadorizada entraria em cena quando a localização do nódulo ou sua relação com estruturas próximas exigisse um mapeamento tridimensional mais detalhado antes ou durante o procedimento.

O que a ressonância magnética mostrou depois

Antes e depois do tratamento, as pacientes foram avaliadas com ressonância magnética — o método de imagem mais sensível para detectar e caracterizar nódulos de endometriose, porque diferencia com precisão os tecidos moles e identifica sinais de sangramento antigo dentro do nódulo.

Os resultados foram expressivos. O volume mediano dos nódulos caiu de 2,98 cm³ para 0,90 cm³ na ressonância magnética, representando uma redução de 73% na mediana. Em outras palavras, o nódulo não desapareceu completamente na maioria dos casos, mas encolheu de forma substancial. Isso importa porque um tecido morto pela crioablação não some instantaneamente: ele é progressivamente reabsorvido pelo organismo ao longo dos meses. A ressonância magnética ao longo do seguimento permite documentar esse processo e diferenciar tecido necrótico residual de recidiva, que teria comportamento diferente no sinal da imagem.

Em termos de dor, a escala VAS — uma régua numérica de 0 a 10 que o paciente preenche conforme a intensidade da dor — caiu de uma mediana de 8,0 antes do procedimento para 0,0 no seguimento, com diferença estatisticamente significativa. Quatorze das 17 pacientes relataram alívio completo da dor, com seguimento mediano de 22 meses. Isso é relevante porque alívio imediato é diferente de alívio duradouro: 22 meses é tempo suficiente para avaliar se o efeito se mantém além do período pós-procedimento.

Quanto aos efeitos adversos, três ocorreram: dois classificados como grau B pela escala da Society of Interventional Radiology — queimaduras superficiais por frio na pele ao redor do umbigo, tratadas de forma conservadora — e um classificado como grau C, que exigiu desbridamento cirúrgico. Esse último caso é o mais relevante para a análise de segurança: ainda que tenha sido resolvido, indica que a proximidade do nódulo com a pele é um fator de risco que precisa ser gerenciado. A criosonda congela o que está ao redor, e a pele pode ser afetada se a “ice ball” crescer além do planejado.

O que muda na prática e o que ainda está em aberto

Para as pacientes, a diferença prática mais imediata é que 94% dos procedimentos foram realizados em regime ambulatorial — ou seja, sem internação, com alta no mesmo dia. Esse dado tem implicações reais de logística, custo e conforto. Por outro lado, 70% dos procedimentos foram feitos sob anestesia geral, o que mostra que “minimamente invasivo” não significa necessariamente “sem anestesia”. A distinção importa para não criar expectativas incorretas.

É necessário, no entanto, reconhecer as limitações do estudo. Dezessete pacientes em um único centro, ao longo de oito anos, é uma amostra pequena. Não há grupo de controle comparando a crioablação com a cirurgia convencional. O seguimento mediano de 22 meses, embora encorajador, não responde sobre o comportamento da doença a longo prazo — endometriose é uma condição crônica e a possibilidade de recidiva local existe. Além disso, a endometriose umbilical é uma entidade rara, o que torna estudos maiores e multicêntricos difíceis, mas necessários antes que o método possa ser considerado padrão de tratamento.

Ainda assim, o estudo demonstra algo genuinamente útil: que é possível, com uma agulha, um equipamento de criogênio e uma tela de imagem, destruir um nódulo doloroso no umbigo de forma controlada, com dor sendo avaliada antes e depois por instrumentos padronizados e com a ressonância magnética documentando o que acontece com o tecido ao longo do tempo. O papel da imagem aqui não é apenas diagnóstico — é guia, controle e avaliação de resposta. Essa integração entre imagem e terapia é, afinal, o que define a radiologia intervencionista como especialidade.


Baseado em ‘Percutaneous image-guided cryoablation of umbilical endometriosis: safety, feasibility, clinical, and imaging outcomes’ publicado por European Radiology em 11 de maio de 2026. Link: https://link.springer.com/article/10.1007/s00330-026-12592-7

Conteúdo informativo. Não substitui avaliação clínica ou laudos médicos especializados.

Foto de Lespa số 1 về điều trị mụn, nám, sẹo rỗ no Pexels (https://www.pexels.com/photo/physician-performing-usg-examination-5042613/)

A. Lima

A. Lima é bacharel em Física com ênfase em Física Médica, especialista em Saúde Coletiva e mestre em Ciências da Saúde. Com mais de 30 anos de atuação em Vigilância em Saúde e 25 anos de docência em Física, escreve sobre tecnologia em saúde, física médica e ciência aplicada com rigor técnico e linguagem acessível.